domingo, agosto 06, 2006

Eulália Mendes



Os seus dados biográficos, são por si só uma metáfora que melhor que todas as monografias espelham a realidade do século XX com toda a sua miséria e grandeza.

Eulália Mendes nasceu em Gouveia em 1910. Filha de um operário metalúrgico e de uma domestica. A militância politica anarco-sindicalista do seu progenitor, e a pequenez do meio empurram a família para a emigração.

O casal parte em 1912, levando a filha Eulália com dois anos mais um outro filho, um rapaz um pouco mais velho.

O destino original seria o Brasil, mas à última hora, por razões de tempo de espera e porventura financeiras, optaram pelo barco que já estava no Tejo e partiram em direcção a Nova Iorque.

Eulália Mendes frequenta durante poucos meses a escola primária em Boston onde os seus pais se radicaram. Aos seis anos como todas as crianças da sua condição, vê-se empregada numa das fábricas. A indústria têxtil americana, sobretudo na costa leste, cresceu como cogumelos à custa da guerra na Europa. O trabalho e exploração infantil eram vistos com naturalidade pela sociedade bem pensante da costa leste.

Eulália, no seu corpo franzino revela-se demasiado pequena para trabalhar nos teares. Por ser esperta e viva, torna-se ajudante administrativa. Sozinha, aprende a ler entre os teares e as sirenes da fábrica.

Eulália aprende depressa. Cedo percebe a injustiça da realidade laboral norte-americano. Com algumas noções do sindicalismo aprendidas em casa e com um dia-a-dia que não lhe permitia outra escolha, aos 18 anos vemo-la dirigir a greve das operárias têxteis de Boston.

Eulália organiza a greve de 28. A portuguesa prepara esta importante e histórica luta em que os trabalhadores, mais concretamente as operarias têxteis, fizeram parar as fábricas.
Pararam durante quase seis meses. Seis meses de greve consecutiva causando milhares de dólares de prejuízo ao patronato que teve que ceder às justas aspirações das trabalhadoras.
Bateram-se por salários mais justos e sobretudo pelo direito à sindicalização livre.
Em 28, a luta das operarias têxteis de Boston deve ser vista uma bandeira vermelha desfraldada aos ventos da mudança. Finalmente os trabalhadores juntavam-se para lutar contra o capitalismo.

Esta luta colectiva deve ser vista à luz da sua conjuntura histórica: falamos do período imediatamente anterior à queda da bolsa de 29. Viviam-se os anos da superprodução. O capitalismo enquanto sistema jamais tinha sido posto em causa no continente americano.

É no desenrolar da greve de 1928 que Eulália adere ao Partido Comunista Americano e se faz revolucionária a tempo inteiro.


Nos anos 30 e 40 as responsabilidades politicas de Eulália são sobretudo ao nível da ligação entre o Partido Comunista e o movimento sindical.

Depois da segunda guerra mundial, com o Partido Comunista Americano fragilizado por infiltrações e por traições, Eulália prossegue o seu trabalho e a sua luta agora com responsabilidades mais ligadas aos movimentos pacifistas.

Em 1952, no culminar dos terríveis processos de repressão anti-comunista Eulália é expulsa desse país que era o seu há quarenta anos.

Sem família em Portugal e com o Salazar a ditar a sua ignomínia, Eulália, com o apoio do PCP segue para a Roménia.

Eulália Mendes viveu em Bucareste até 2004.

A Eulália não morreu. Os comunistas como a Eulália não morrem. Ficam vivos no trabalho que desenvolveram e no exemplo que nos deixaram.

segunda-feira, março 20, 2006

135 anos de Comuna -- As bengaladas que o Joaquim Pinto deu ao Pinheiro Chagas


Irmão do herói liberal da guerra civil, o Manuel Pinheiro Chagas ficou recordado como historiador e intelectual da última metade do século XIX. Jornalista de deputado regenerador, o brigadeiro Pinheiro Chagas, como o Eça de Queirós sarcasticamente lhe chamava foi um intelectual do regime. Quando a comuna de Paris é formada em 1871, o jornalismo que se fazia em Portugal foi unânime em criticar e difundir mentiras e calunias sobre a comuna, e as suas leis.

Inventavam-se historias escabrosas quer sobre os communards quer sobre os excessos da liberdade. As notícias sobre os decretos que falassem em liberdade sexual e em direitos iguais para ambos os sexos, vendiam tinta e chocavam particularmente.

Em Portugal falou-se muito (e mal) sobre o batalhão das amazonas comandado pela Communard Marie Louise. Nada aterrorizava mais a Lisboa burguesa e bem pensante do que um batalhão de mulheres operárias a lutar de armas na mão contra os soldados enviados pelo governo.

Quando a Comuna foi esmagada, e muitos milhares de communards foram assassinados sem julgamento, os jornais portugueses apenas comentaram que a canalha teve o que merecia.

Apesar do massacre generalisado, alguns dos dirigentes da comuna, num acto de propaganda foram levados a julgamento. Entre os dirigentes obrigados a comparecer em tribunal, estava a já celebre Marie Louise. Marie Louise foi carinhosamente chamada de "Virgem Vermelha" pela imprensa comunista, socialista e anarquista que por essa Europa já despontava.

A imprensa em Portugal mantinha ainda a sua subjugação aos princípios burgueses (alguma vez deixou de ter?!?!) e crucificou a Marie Louise.

Um dos jornalistas mais críticos à comuna foi, como não podia deixar de ser, o brigadeiro Chagas. Numa linguagem elitista e debitando lugares comuns (o que de resto é próprio dos intelectuais de regime) o brigadeiro Chagas escreveu um artigo de opinião que pretendia ter graça.

No seu artigo sugeria que se fosse em Portugal (país referencia!!!!) nem valia a pena julgarem a Marie Louise. Segundo o Chagas, para por essa mulher na ordem, bastava levantarem-lhe as sais e dar-lhe um bom ar de açoites!!!!
Com o seu machismo bacoco o assumidíssimo Pinheiro Chagas defendia assim a violência doméstica contra os males da emancipação das mulheres.

O Revolução Social, um dos primeiros jornais portugueses ligados à Associação Internacional dos Trabalhadores (1º movimento internacionalista que aliou comunistas, socialistas e anarquistas) decidiu responder ao Pinheiro Chagas.

O jornalista e professor primário Manuel Joaquim Pinto escreveu a resposta.
O Professor Joaquim Pinto dava aulas naquilo que se chamava o Ensino Livre (e gratuito acrescentamos nós) numa escola que funcionava no Largo Calvário, em Alcântara, (no edificio onde hoje funciona a Videoteca Municipal de Lisboa). A escola de Ensino Livre era administrada pela Associação Promotora da Educação para a Infância de Lisboa.
Esta Associação, que ainda hoje existe e onde ainda hoje funciona uma escola, servia sobretudo para proporcionar o acesso à educação aos filhos dos operários das fábricas que durante o século XIX se fixaram em Alcântara.
No seu artigo na Revolução Social, o professor Joaquim Pinto, explicou ao Pinheiro Chagas a deficiência dos seus argumentos e a baixeza das suas razões.

O Pinheiro Chagas, teve algumas dificuldades para entender o conteúdo do artigo. Assim, escreveu uma carta para o Joaquim Pinto pedindo explicações.
Habitado a explicar, o pedagogo anarco-cumunisa, saiu de Alcântara directo ao parlamento que já era em São Bento. O jornalista Pinheiro Chagas era tambem deputado e era no parlamento que passava os seus dias. Seguindo a sugestão do próprio Pinheiro Chagas, feita a propósito da Marie Louise, adaptou o método, assim, não deu lhe deu um par de açoites mas sim um par de bengaladas. Das rijas, à antiga portuguesa!!!

O Joaquim Pinto, foi julgado e condenado. Cumpriu dezoito meses de prisão e pagou uma multa.

Na prisão da Nova Caledónia para onde foi desterrada, a Marie Luise, escreve uma carta (publicada no Crie du Peuple em 1888) solidarizando-se com os camaradas portugueses.

O Pinheiro Chagas ficou com os cornos partidos e transformaram-no num herói nacional e num mártir às mãos da canalha socialista, mas as bengaladas, essas nunca ninguém lhas conseguiu tirar.

Por princípio


Agitação e propaganda.
Somos comunistas. Internacionalistas Leninistas convictos.
Do passado tiramos as lições que nos servem de praticas para hoje construírem o amanhã.

O compromisso que assumimos é de um diálogo frontal e verdadeiro com a História uma vez que esta é a memória da humanidade.

Não acreditamos em dogmas mas sim em convicções.
A Comuna de Paris, a Revolução de Outubro e a Revolução Cubana são referencia.
Este blog serve para difundir e propagandear as mensagens do movimento comunista internacional e português.

Pretendemos intervir ao nível da divulgação de acontecimentos, factos e pessoas que foram e são determinantes para o internacionalismo proletário.

Apesar de estarmos especialmente vocacionados para a análise histórica, não somos alheios, à política internacional, nacional e regional que acontece hoje.
Não vamos deixar de intervir também a esse nível.Acreditamos que todos os homens nascem bons e iguais.

São bem vindos ao diálogo todos os democratas.
visitas