Eulália Mendes

Os seus dados biográficos, são por si só uma metáfora que melhor que todas as monografias espelham a realidade do século XX com toda a sua miséria e grandeza.
Eulália Mendes nasceu em Gouveia em 1910. Filha de um operário metalúrgico e de uma domestica. A militância politica anarco-sindicalista do seu progenitor, e a pequenez do meio empurram a família para a emigração.
O casal parte em 1912, levando a filha Eulália com dois anos mais um outro filho, um rapaz um pouco mais velho.
O destino original seria o Brasil, mas à última hora, por razões de tempo de espera e porventura financeiras, optaram pelo barco que já estava no Tejo e partiram em direcção a Nova Iorque.
Eulália Mendes frequenta durante poucos meses a escola primária em Boston onde os seus pais se radicaram. Aos seis anos como todas as crianças da sua condição, vê-se empregada numa das fábricas. A indústria têxtil americana, sobretudo na costa leste, cresceu como cogumelos à custa da guerra na Europa. O trabalho e exploração infantil eram vistos com naturalidade pela sociedade bem pensante da costa leste.
Eulália, no seu corpo franzino revela-se demasiado pequena para trabalhar nos teares. Por ser esperta e viva, torna-se ajudante administrativa. Sozinha, aprende a ler entre os teares e as sirenes da fábrica.
Eulália aprende depressa. Cedo percebe a injustiça da realidade laboral norte-americano. Com algumas noções do sindicalismo aprendidas em casa e com um dia-a-dia que não lhe permitia outra escolha, aos 18 anos vemo-la dirigir a greve das operárias têxteis de Boston.
Eulália organiza a greve de 28. A portuguesa prepara esta importante e histórica luta em que os trabalhadores, mais concretamente as operarias têxteis, fizeram parar as fábricas.
Pararam durante quase seis meses. Seis meses de greve consecutiva causando milhares de dólares de prejuízo ao patronato que teve que ceder às justas aspirações das trabalhadoras.
Bateram-se por salários mais justos e sobretudo pelo direito à sindicalização livre.
Em 28, a luta das operarias têxteis de Boston deve ser vista uma bandeira vermelha desfraldada aos ventos da mudança. Finalmente os trabalhadores juntavam-se para lutar contra o capitalismo.
Esta luta colectiva deve ser vista à luz da sua conjuntura histórica: falamos do período imediatamente anterior à queda da bolsa de 29. Viviam-se os anos da superprodução. O capitalismo enquanto sistema jamais tinha sido posto em causa no continente americano.
É no desenrolar da greve de 1928 que Eulália adere ao Partido Comunista Americano e se faz revolucionária a tempo inteiro.
Nos anos 30 e 40 as responsabilidades politicas de Eulália são sobretudo ao nível da ligação entre o Partido Comunista e o movimento sindical.
Depois da segunda guerra mundial, com o Partido Comunista Americano fragilizado por infiltrações e por traições, Eulália prossegue o seu trabalho e a sua luta agora com responsabilidades mais ligadas aos movimentos pacifistas.
Em 1952, no culminar dos terríveis processos de repressão anti-comunista Eulália é expulsa desse país que era o seu há quarenta anos.
Sem família em Portugal e com o Salazar a ditar a sua ignomínia, Eulália, com o apoio do PCP segue para a Roménia.
Eulália Mendes viveu em Bucareste até 2004.
A Eulália não morreu. Os comunistas como a Eulália não morrem. Ficam vivos no trabalho que desenvolveram e no exemplo que nos deixaram.


